Crônica do Mês

Neste espaço, a cada mês, você poderá ler uma nova crônica de Luiz Otávio Dobal. Críticas e/ou Sugestões  devem  ser  endereçadas  por  e-mail.

CONVERSANDO

Luiz Otávio Dobal

-Olá, tudo bem?

-Comigo sempre está. E você?

-Eu também não estou mal. Estou meio confuso, mas estou legal. Acho!

-E a viagem, foi tranqüila?

-Foi rápida, e... repentina.

-Essas são as melhores, acredite.

-Você veio comigo? Quer dizer, está na mesma situação?

-Não, não. Eu sou Deus.

-Sério!

-Sei que você nunca acreditou em mim, mas tenha certeza: eu não brinco com isso.

-Não é que nunca acreditei. Eu só contestava alguns conceitos.

-Por exemplo!

-Hum... Isso aqui, por exemplo, eu não esperava que fosse assim.

-O que você queria, uma porta, uma fila, um livro grande, São Pedro...

-Porque não? É um conceito, uma idéia.

-Conceito! Idéia! Isso só é assim em piada.

-Como piada?

-Daquelas que tem um brasileiro, um argentino, um inglês...

-Algumas são engraçadas.

-Isso aqui pode ser tudo, menos engraçado.

-É, tem razão. Foi mal.

-Tudo bem! Não tem problema. Eu estou acostumado.

-E agora!

-Agora o que?

-O que acontece? Para onde eu vou?

-Você quer ir para algum lugar?

-Bom! Não é que eu queira, mas eu preciso ir. Pelo menos acho!

-Ir para onde?

-Sei lá! Eu vou ficar aqui?

-Você veio até aqui, agora pode ficar, voltar ou seguir em frente. Você é quem sabe.

-Hum...Já sei! Céu ou inferno! É isso que tenho que decidir. Se vou pra um ou pra outro.

-Esquece. Isso não existe.

-Você está de sacanagem!

-Eu já disse que não brinco com isso. E olha a boca.

-Desculpe! Foi mal.

-Tudo bem! Já esqueci.

-Quer dizer que não existe céu ou inferno?

-Não é bem assim. O que não existe é um céu ou inferno criado por mim.

-Mas você não criou tudo?

-Tudo não. Minhas criaturas também criam, e algumas vezes afirmam que fui eu que criei.

-Criaturas mentirosas!

-É você que está dizendo, não eu.

-Legal! Então não existe céu nem inferno. Interessante.

-Não existem na concepção que você tem.

-Como assim?

-Aquele céu com anjinhos tocando harpas e inferno com chifrudos segurando garfos, esquece, não existe.

-E qual existe?

-Isso depende de cada um. Você cria seu próprio céu e inferno.

-Do meu jeito?

-Exatamente. Com decoração, música, temperatura e habitantes a seu gosto.

-Interessante!

-Você já disse isso.

-Eu tenho mania de repetir as coisas. Deve ser defeito de “criação”.

-Para quem não acredita em Deus, você é bem abusado.

-Você é nervosinho?

-Tá abusando.

-Você não entendeu. Eu quis saber se você age por impulso, com agressividade.

-Não entendi!

-Aquela estória de ira divina, raios, trovões, dilúvios, rios de lavas, etc.

-Exagero de algumas criaturas. Eu sou da paz!

-E esse sorrisinho no canto da boca. Hem!

-Tá bom! Alguma coisa é verdade, mas quem nunca teve um dia ruim?

-Às vezes acho que nós criaturas merecemos essa tal ira divina.

-Está enganado. Vocês merecem o paraíso. Aliás, eu dei um pra vocês.

-E a gente destruiu tudo.

-É verdade, mas ainda podem consertar.

-Você acredita mesmo nisso?

-Se não acreditasse, nós não estaríamos tendo esta conversa.

-Agora me assustou!

-Relaxa. Eu já disse que sou da paz.

-Tá Bom! Mas me diz, você pode fazer qualquer coisa?

-Claro que sim!

-Então porque não acaba com a violência? Foi ela que me trouxe aqui.

-Livre arbítrio. Já ouviu falar?

-Claro! Mas a coisa não fugiu um pouco do controle?

-Muito! Mas ainda acho que vocês dão um jeito.

-Mas você podia dar uma ajudinha, não?

-Tudo que me pedem com fé, eu faço.

-Hum... Qualquer coisa?

-Você não imagina os pedidos que já atendi.

-Futebol, já deu uma forcinha?

-Lembra do Botafogo? Vinte anos sem título, pois é.

-Você é alvinegro!?

-Eu? Deus não pode ter time, senão seria injustiça.

-Você é alvinegro.

-Para com isso. Eu não posso falar nada que entendem errado.

-Como assim?

-Uma vez abri a boca e pronto, bastou para todo mundo dizer que Deus é brasileiro, que mora no Rio de Janeiro. Imagina se falo qual o meu time. Toda vez que ele for campeão vão dizer que foi marmelada.

-Tá legal! Mas você podia interferir um pouco.

-Nada disso. Vocês bagunçaram, vocês arrumam.

-Hum...Sabe de uma coisa? Acho que vou voltar e tentar melhorar aquela bagunça!

-Grande decisão. Sabia que podia contar contigo.

-Olha só! Eu não prometo nada, mas vou me esforçar.

-Eu sei que você consegue. Você não parece, mas é dos bons.

-Afinal, se a coisa não melhorar, vai começar a pegar mal para o criador.

-Não é porque te elogiei que você pode abusar. Pega leve.

-Calma! Você sabe como vou me sair, não sabe?

-Claro! Eu sei tudo.

-Você está com aquele risinho de novo!

-Impressão sua. Isso é tique.

-Bom, já vou indo. Valeu o papo. Você é legal!

-Obrigado. Você também é legal! Vai com Deus!

-Isso foi uma piada?

-Eu já te disse: eu não brinco.

-Só mais uma coisa.

-O que?

-Sabe aquela mulher que me amou a vida toda, apesar de todas as bobagens que eu fiz?

-Sei. O que tem?

-Obrigado.

-Não fui eu, foi sorte sua.

-Tá com aquele risinho outra vez.

-Se manda, você vai se atrasar.

-Então, adeus!

-Adeus não, meu filho, até logo.

 

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