




Crônica do Mês
Neste espaço, a cada mês, você poderá ler uma nova crônica de Luiz Otávio Dobal. Críticas e/ou Sugestões devem ser endereçadas por e-mail.Maria Alice
Luiz Otávio Dobal
Maria Alice era uma menina comum, não muito diferente das meninas de sua idade. Tinha apenas uma particularidade. Às vezes, no meio de uma brincadeira ou rompendo um silêncio qualquer, ela soltava aquela frase: “Qualquer dia eu largo tudo e me mando para Shangrilá”.
Ninguém lembra exatamente quando foi que ela começou com aquilo ou de qualquer explicação para o motivo da afirmação. Nunca se perguntou ou se discutiu sobre aquela particularidade. Aquilo simplesmente acontecia a qualquer momento e, creio que não se perguntava ou até mesmo não era exigido dela uma explicação, por causa do brilho que nascia no seu olhar quando repetia a frase. Era algo hipnotizante. Era como se seus olhos abrissem uma porta para outra dimensão. Aquilo provocava em todos uma espécie de transe, e também uma deliciosa sensação que durava breves segundos. Talvez apenas o tempo necessário para que ela dissesse lentamente a frase: “Qualquer dia eu largo tudo e me mando para Shangrilá”.
Com o tempo, todos se acostumaram com aquele seu jeito, até porque todos gostavam muito dela. Maria Alice era daquelas pessoas que cultivam as amizades, tinha muitos amigos e era muito próxima deles. Tão próxima que cresceu cercada por eles e sem grandes diferenças das outras pessoas. Maria Alice brincou de bonecas, namorou, estudou, casou, chorou, se formou, trabalhou, descasou, sorriu... Sempre transmitindo companheirismo, amizade, alegria e repetindo, vez por outra, aquela frase: “Qualquer dia eu largo tudo e me mando para Shangrilá”.
Um dia Maria Alice desapareceu. Aconteceu tão de repente que, penso eu, entristeceu boa parte do universo. Durante muito tempo se falou do seu desaparecimento; alguns choraram, outros se revoltaram, mas finalmente todos pareceram esquecer ou se conformar com a ausência dela.
Eu nunca mais fui feliz.
Muito tempo se passou e houve muitas mudanças na minha vida. Até que inesperadamente recebi pelos correios um postal sem remetente, com uma foto dela à frente de uma paisagem que lembra o paraíso. Na foto, Maria Alice sorri lindamente e tem aquele brilho no olhar que me provoca um delicioso transe. O postal traz também escrito, abaixo da foto com uma letra alegre, a frase: “Porque você sempre acreditou”.
Hoje, toda vez que olho o já amarelado postal, sinto um exato segundo de felicidade e repito mentalmente: “Qualquer dia eu largo tudo e me mando para Shangrilá”.