Crônica do Mês

Neste espaço, a cada mês, você poderá ler uma nova crônica de Luiz Otávio Dobal. Críticas e/ou Sugestões  devem  ser  endereçadas  por  e-mail.

Com o Vento

Luiz Otávio Dobal

Veio com o vento. Era só uma folha de papel, dessas que são arrancadas de cadernos com espirais e deixam aquelas pontas na lateral. Ele a pegou por vários motivos: primeiro por instinto, afinal aquela folha chegou planando rente ao seu nariz, era espantá-la como se espanta um inseto inconveniente ou pegá-la como se pega um pássaro, pela asa. Segundo, por sentir aquela vontade que já imaginava esquecida lá pelos seus tempos de menino na escola, aquela necessidade de arrancar os pedacinhos de papel da lateral da folha, um a um, lentamente, até que não se percebesse que um dia aquela folha de papel esteve presa a espiral de algum caderno. Terceiro, por curiosidade mesmo. Quem não tem vontade de saber o conteúdo de uma folha de papel que chega repentinamente com o vento?

Assim que pegou na folha a dobrou, tinha a intenção de esconder seu conteúdo, queria atiçar sua curiosidade e fazê-la aumentar, tinha tempo. Nunca ficou tanto tempo sentado em um banco de frente para o mar. Nunca pensou que o tempo corresse tão rápido em frente ao mar. Foi aquela folha de papel que o alertou para a passagem rápida do tempo, ou talvez fosse o vento transvertido de papel, escrevendo sua mensagem e avisando que o tempo estava correndo. Que importância isso teria se ele não pretendia voltar para casa ou voltar para ela. Haviam brigado, não era a primeira vez mas agora era sério. Pelo menos de manhã quando saiu batendo a porta achava que era muito sério, agora com o mar a sua frente, com o passar rápido do tempo, não tinha muita certeza. Queria voltar, sentia falta dela, já estava arrependido, mas precisava de um empurrão para vencer seu orgulho.

Foi então que distraidamente desdobrou a folha de papel e se encantou com seu conteúdo. Entre dois corações desenhados em desalinho estava escrito com uma letra feminina e adolescente, um singelo: “Meu Amor”.

 

Foi o bastante. Ele não precisava de mais nada. Levantou-se, deixou a folha de papel – agora sem os pedacinhos picotados junto a lateral – sobre o banco da praia e, sentindo o perdão e a alegria brotar de seu peito, caminhou até o florista e depois para casa.